Tabuleta proto-cuneiforme suméria (c. 3100–2900 a.C.), utilizada para registrar a distribuição de cevada — um antigo testemunho da contabilidade e da administração econômica da humanidade.
Acervo: The Metropolitan Museum of Art (domínio público)..
O que é dinheiro ?
Por Maria Gabriela Perna, maio de 2026.
Provavelmente você já ouviu que o dinheiro surgiu para facilitar a troca. Segundo a teoria clássica de Adam Smith, antes do dinheiro existia o escambo.
João tem frutas e quer sapatos. Mário, porém, tem sapatos, mas não quer frutas. A troca só seria possível se os desejos coincidissem.
Para resolver esse problema, surge então o dinheiro: o meio aceito por todos.
Será?
“Para cada problema complexo, existe uma resposta clara, simples e errada.” — H. L. Mencken
O problema dessa teoria é que não há evidências históricas que a comprovem. A antropóloga Caroline Humphrey, em seu artigo Escambo e desintegração econômica (1985), observou:
“Nunca foi descrito um exemplo de economia baseada puramente em escambo... toda etnografia disponível sugere que tal coisa nunca existiu.”
O Setor 9 apresenta: O dinheiro.
Sumérios, acádios, assírios, babilônios. A Mesopotâmia foi a região do mundo onde os primeiros governos e civilizações se organizaram.
Muitas pessoas imaginam que Roma representou o auge do mundo antigo. No entanto, Roma floresceu sobre um mundo que já havia sido ricamente fundamentado e construído por civilizações muito anteriores, especialmente as da Mesopotâmia e do Egito. Desses povos vieram importantes fundamentos da escrita, do direito, da astronomia, da matemática, da administração, da arquitetura, da engenharia e da organização econômica. Legados que, por diferentes caminhos, influenciaram profundamente o desenvolvimento do mundo clássico.
Foi nessa região do mundo (Mesopotâmia) que os reis passaram a governar a terra.
Todo governo nasce da necessidade de estabelecer uma ordem. E por ordem, quero dizer o princípio que estrutura e sustenta as partes que compõem um todo, segundo sua natureza e propósito.
A ordem de um império se manifesta por meio do culto/cultura, das leis, do poder militar e da administração de recursos.
Em uma linha do tempo histórica dos primeiros governos terrenos a serem formados, encontramos na região da Mesopotâmia o surgimento das cidades sumérias, consideradas as mais antigas civilizações da humanidade e o Egito antigo, que se desenvolveu às margens do Nilo. Em ambos os contextos, muito antes da existência das moedas como as conhecemos hoje, já havia registros escritos de tributos, estoques, dívidas e salários.
Neste artigo, porém, iniciaremos o olhar sobre a Mesopotâmia, não por desconsiderar a importância do Egito, mas porque os registros sumérios ligados à escrita, à contabilidade, à dívida e à administração econômica são ligeiramente mais antigos e oferecem um ponto de partida particularmente relevante para compreender a origem histórica do dinheiro e por consequência, sua definição.
Nas antigas civilizações, templos e palácios eram os grandes polos organizadores da economia. A Mesopotâmia não era formada por indivíduos independentes trocando maçãs espontaneamente, mas por uma civilização que organizava recursos em escala gigantesca.
Templos, palácios e centros administrativos controlavam terras, armazenavam grãos, organizavam o trabalho, distribuíam recursos, cobravam tributos e mantinham registros de dívidas.
Costuma-se dizer que a escrita nasceu muito mais da contabilidade do que da poesia. As dívidas eram registradas em tabuletas de argila por meio da escrita cuneiforme.
“Fulano deve 10 quilos de cevada ao templo.”
Veja isso: uma relação de crédito e dívida. E, se há um Estado, um governo, é ele quem define o que será aceito como pagamento dessa dívida.
Alfred Michel-Innes, nos artigos O que é o dinheiro? (1913) e A teoria do crédito monetário (1914), argumenta que o dinheiro nasce como reconhecimento de uma obrigação: o tributo ao Estado. A autoridade reconhecida administra os recursos, impõe tributos e define o meio pelo qual esses tributos devem ser pagos. É a obrigação de quitar débitos perante o Estado, que confere aceitação coletiva e valor ao meio de pagamento estabelecido.
Assim, cevada, trigo, conchas, ouro, prata ou papel: aquilo que a autoridade política aceita para o pagamento de tributos tende a adquirir a condição de dinheiro. O valor não está no objeto em si; a autoridade política define o que será aceito e lhe atribui valor.
Estela do Código de Hamurabi (c. 1754 a.C.), preservada no Museu do Louvre. Na parte superior, o rei Hamurabi recebe autoridade divina do deus Shamash; abaixo, encontram-se leis sobre dívidas, juros, garantias, trabalho, tributos e outras normas que estruturavam a ordem econômica da Babilônia.
Ainda pela história, agora já na Babilônia formada...
O Código de Hamurabi, hoje preservado no Museu do Louvre, contém leis relacionadas a dívidas, juros, garantias, trabalho, escravidão por dívida, salários e tributos. Se alguém não conseguisse pagar uma dívida, por exemplo, poderia entregar trabalho, familiares ou a si próprio temporariamente como servo. O rei regulava dívidas, juros e formas de pagamento.
Por exemplo, a Lei 51:
Se um homem não tiver prata para pagar, poderá entregar cevada ou gergelim equivalentes ao valor da prata e dos juros, conforme a taxa legal estabelecida pelo rei.
Lei 48:
Se alguém tiver uma dívida e a colheita for destruída por tempestade ou seca, naquele ano ele não pagará o grão ao credor e os juros serão suspensos.
Na parte superior da estela, Hamurabi aparece recebendo autoridade divina do deus Shamash. Um testemunho da ordem econômica, jurídica e cósmica e do império.
Vamos sobrevoar brevemente a história, para que voce percorra um mapa mental sobre o assunto até os dias de hoje. A sequência mostra a origem do dinheiro a partir da organização do Estado e da necessidade de medir, registrar e liquidar obrigações, até chegarmos à moeda com valor padronizado garantido pela autoridade política.
"Depois que a realeza desceu do céu..."
Não temos, até onde alcançam os registros históricos preservados, o nome do primeiro rei a governar sobre a Terra.
Temos, porém, antigas tradições que procuram explicar a origem da realeza. A Lista de Reis Sumérios afirma que “a realeza desceu do céu” e apresenta Alulim, de Eridu, como o primeiro rei. A tradição bíblica, por sua vez, preservou o relato de Ninrode, apresentado como um dos primeiros grandes governantes da Mesopotâmia no período pós-diluviano.
A ideia de que a realeza desce do céu, serve para legitimar o poder e a autoridade política, jurídica, economica e espiritual concedida ao governante.
Pesar, medir para registrar
Você sabe o que era um shekel, ou ciclo?
Tratava-se de uma unidade de medida usada para quantificar prata, cevada e outros bens de valor.
“Fulano deve 5 shekels de prata.”
Se um shekel equivalesse a 12 gramas de prata, fulano deveria 60 gramas.
Com o tempo, várias moedas passaram a ser chamadas de shekels ou ciclos. Originalmente, porém, o shekel era apenas uma medida de peso utilizada para mensurar obrigações econômicas.
Tablette proto- cuneiforme administrative (AO 2950) é uma pequena tabuinha de argila do periodo de Uruk Recente (a.C. 3500 - 3100 a.C), preservada no Museu do Louvre, em Paris.
Depois de medido, registrado em tabuletas
Este é um dos mais antigos documentos escritos preservados do mundo. As primeiras sociedades urbanas da Mesopotâmia registravam informações economicas muito antes do desenvolvimento pleno da escrita cuneiforme.
O Estado define aquilo que será aceito como pagamento
Conchas-cauris utilizadas como meio de pagamento na China durante a dinastia Shang, 1600–1046 a.C. Encontradas em Yinxu, antiga capital Shang. National Museum of China. Fotografia: Gary Todd. Imagem em domínio público (CC0), via Wikimedia Commons.
Cevada, trigo e outros cereais, utilizados para pagamentos, tributos e distribuição de recursos nas antigas economias.
Barra de sal conhecida como amolye, usada como moeda na Etiópia por volda de 1830. Musée du quai Branly, Paris. Imagem via Wikimedia Commons.
Moeda de eletro da Lídia, c. 650–560 a.C., com cabeça de leão. A Lídia, na Anatólia, é geralmente associada ao surgimento das primeiras moedas cunhadas, por volta de 650 a.C.
Staatliche Münzsammlung München. Imagem via Wikimedia Commons.
Os exemplos que usamos servem para comunicar o cerne da questão do dinheiro: não é o valor intrínseco do objeto que o torna aceitável e sim, o valor que o Estado atribui.
Percebe que não há mercado genuinamente separado do Estado, como muitos defendem?
O professor Esteven Hail em seu artigo De onde veio o dinheiro? (2024), observa:
"A teoria de que o dinheiro surgiu naturalmente no setor privado leva as pessoas a acreditarem que os mercados livres são sistemas naturais nos quais os governos apenas interferem. Mas, na verdade, os primeiros governos inventaram as próprias instituições monetárias e de mercado, bem como os marcos regulatórios que determinavam o funcionamento desses mercados e em benefício de quem eles atuavam."
Então, perceba a construção: O Estado centraliza a administração dos recursos, cobra tributos e define o que será aceito como pagamento das dívidas.
Inicialmente o valor é calculado em peso. Prata, ouro, cevada, cereais. Das medidas de peso, avançamos para unidade de conta; das unidades de conta para moedas.
Moedas, papel, dinheiro digital. O dinheiro vai assumindo formas cada vez mais abstratas.
Antes de concluir, uma reflexão
Antes de concluir este artigo, e ja que temos aqui a proposta de refletir, quero fazer uma observação sobre o termo "recurso" quando o usamos no sentido de dinheiro:
Dinheiro não é a mesma coisa que recurso.
Voce pode possuir muitos recursos e ainda assim não conseguir produzir dinheiro. Costuma-se dizer que o Brasil é um país rico em recursos naturais. Mas riqueza não depende apenas daquilo que se possui, e sim da capacidade de explorar, produzir e organizar.
De nada adianta possuir "terras raras" sem conseguir explora-las.
Da mesma forma, de nada adianta saber fazer brigadeiros e nunca produzi-los.
O que não é explorado não gera riqueza.
Explore seu potencial.
Conclusão, por analogia
Por analogia, dinheiro é, na realidade, o sangue que corre nas veias dos governos humanos.
Quando você compra, paga ou recebe, está lidando com o sangue que circula no corpo da atual ordem. E, para prosperar nessa ordem, é preciso aprender a produzir e administrar esse fluxo, assim como os órgãos do corpo humano produzem e administram o sangue.
Eis a origem do dinheiro e sua definição.
Podemos continuar a pensar esse assunto, por diferentes prismas. Vimos o caminho histórico e evolução do dinheiro. Qual seria o futuro?
Reflita sobre o tema.
O que mais você pode concluir?
Referencias bibliográficas tanto da tese da origem do dinheiro como escambo citada no início do artigo, quanto da tese da origem do dinheiro como crédito/dívida, serão deixados aqui para que o leitor possa, por si mesmo, iniciar sua pesquisa, e chegar às suas proprias conclusões sobre o tema, caso deseje.
O Setor 9 tem por intenção promover a abertura ao questionamento e à reflexão.
O trabalho...ops, não.
O conhecimento edifica o homem.
Referencias bibliográficas
INNES, Alfred Mitchell. O que é o dinheiro? The Banking Law Journal, 1913.
INNES, Alfred Mitchell. A teoria do crédito monetário. The Banking Law Journal, 1914.
GRAEBER, David. Dívida: os primeiros 5.000 anos. São Paulo: Três Estrelas, 2016.
HAIL, Steven. De onde veio o dinheiro? The Conversation, 2024.
HUMPHREY, Caroline. Barter and Economic Disintegration. Man, New Series, v. 20, n. 1, p. 48–72, mar. 1985.
INSTITUTO MISES BRASIL. O que é o dinheiro, como ele surge e como deve ser gerenciado. 2012. Instituto Mises Brasil.
INSTITUTO MISES BRASIL. A origem do dinheiro e de seu valor. PHANEUF III, Emile. Será que o dinheiro teve origem no “Estado-nação”? Instituto Mises Brasil, 2024.
SMITH, Adam. A riqueza das nações. São Paulo: Nova Cultural, 1996.